MEDIACRACIA
12 July 2009Li em alguns jornais o esclarecimento publicitado pela empresa que teve o mérito de construir o SIGRE (em tempo record e de acordo com especificações fixadas como mandam as regras). É um texto seco e vai ao essencial:
“De forma a clarificar informações vindas a público sobre o papel da Critical Software S.A. no âmbito do Projecto SIGRE – Sistema de Informação e Gestão do Recenseamento Eleitoral – a Critical Software S.A. esclarece o seguinte:
1. Foi adjudicado à Critical Software S.A. o desenvolvimento da aplicação informática designada por Sistema de Informação e Gestão do Recenseamento Eleitoral (SIGRE). O Contrato em causa estabelece com detalhe as características da aplicação a construir.
2. A missão da Critical Software S.A. tem-se cingido, e continuará a cingir-se, ao estrito cumprimento do estabelecido no contrato e das decisões formalmente produzidas pela DGAI-AE, ou outros organismos competentes, no âmbito do referido projecto. Em resumo, as actividades da Critical Software S.A. no projecto SIGRE são exclusivamente o desenvolvimento e manutenção com elevados padrões de fiabilidade, disponibilidade e desempenho, da aplicação em causa, e a execução das decisões dos organismos competentes no âmbito desse projecto.
3. A Critical Software S.A. tem experiência relevante no desenvolvimento de aplicações informáticas em regimes de regulamentação complexos, com requisitos estritos de confidencialidade e segurança. O sistema desenvolvido garante os mais elevados padrões técnicos actualmente disponíveis no que toca a características como a integridade dos dados envolvidos, a capacidade de os auditar, e a sua segurança”.
Sugiro a quem lê estas linhas que vá a um motor de pesquisa de notícias e agregue (como agora se diz) as peças noticiosas que ecoam este texto curto, para poder apurar o que ficou de fora, não por ser prolixo, mas por “não caber”. Vou dar um exemplo apenas tirado do JNonline (tenham paciência e continuem o exercício, que é uma aula sobre a mediacracia):
“Cadernos Eleitorais têm “elevados padrões” de fiabilidade e segurança
2009-07-11 23:30:00
A empresa Critical Software assegurou hoje, sábado, que o sistema desenvolvido para a base de dados dos cadernos eleitorais “garante os mais elevados padrões técnicos”.
A empresa – que está a desenvolver a aplicação informática designada por Sistema de Informação e Gestão do Recenseamento Eleitoral (SIGRE) – enviou à Agência Lusa um comunicado sobre a polémica vinda a público em torno da qualidade da base de dados dos cadernos eleitorais.
Na nota, que visa esclarecer o papel da Critical Software S.A. no projecto SIGRE, a empresa salienta que o projecto lhe foi adjudicado pela Direcção Geral da Administração Interna – Administração Eleitoral (DGAI-AE) e que o contrato “estabelece com detalhe as características da aplicação a construir”.
O comunicado, assinado por Rui Melo Biscaia, esclarece que as actividades da empresa no projecto “são exclusivamente o desenvolvimento e manutenção com elevados padrões de fiabilidade, disponibilidade e desempenho da aplicação em causa, e a execução das decisões dos organismos competentes no âmbito” do SIGRE”.
Já está.
Magnífica lição sobre as regras da mediacracia é o estrondoso silêncio do DN sobre o tema no dia seguinte a ter feito a manchete-lixo que analisei em post anterior. A Conferência de imprensa do MAI não existiu, o comunicado da empresa CSW, tratada insultuosamente pelo DN, “não existiu”.
O grande jornal de referência ecoa apenas uma minúscula declaração do deputado Louçã, lamentando que “não se tenha feito nada” para reformar o recenseamento eleitoral.
É uma declaração muito distraída, uma vez que o BE votou a favor da lei 47/2008, que aprovou a reforma do recenseamento e a deputada Helena Pinto tem acompanhado o tema com atenção e profissionalismo, fazendo boas perguntas para as quais obteve sempre resposta. Ficou-lhe mal não dizer uma palavra sobre os míseros tempos em que a governação de direita mantinha uma montanha de cadernos de papel entulhados de mortos, duplicados e mals inscritos (é daí que vem o ancião de 136 anos que muito o chocou e cuja eliminação já estava programada antes do relatório da CNDP).
É totalmente normal que o BE seja maximamente exigente, mas seria curial que no momento em que o PSD se procura branquear (como se tivesse meritos no combate às anomalias do recenseamento) ajudasse a lembrar que qd votou para mudar a situação anterior, votou bem, ao lado do Governo, no bom sentido. Não tem de se envergonhar de ter ajudado a criar o quadro legal do SIGRE que agora vai permitir fazer o que antes era impossível porque invisível.
No campeonato de tiros de lixo, entrou na liça hoje o Correio da Manhã mesclando dados sobre o processo de contratação da CSW pelo Estado. Como é preciso saber ler os dados pesquisados no site sobre transparência da contratação, a peça em causa ingressa no panteão da mediacracia horribilis, mesclando, confundindo e -claro- enlameando tanto o Estado como a adjudicatária, tratados todos como ladrões de estrada.
Muito justas todas as preocupações sobre a qualidade da democracia, quando num tema em que está tudo à vista há jogadas tão sórdidas para sugerir que há mistérios cavernosos ocultos.
Serve de consolo, neste contexto, o comportamento impecável do Senhor Presidente da República, que usou o seu magistério de influência com eficácia e autoridade para serem tiradas ilações rápidas e correctas do relatório da CNPD.
Infelizmente, alguns esfanicaram-se para ficcionar que viveríamos tempos de mistérios cavernososos . Vivemo-los, de facto, quando, à falta de um SIGRE, os cadernos eleitorais eram uma vulnerabilidade sem terapia possível. Agora que a terapia está em aplicação tanto despudor e desmemória impressionam.
Trabalhemos,pois.
PS: Conforta em momentos destes rever o bom trabalho feito pela equipa da DGAI que formou milhares de autarcas no ano em curso. E estes aprenderam e agiram.
Vejam aqui um exemplo desse trabalho honrado e bem feito.Eppure si muove…
JM
![imagem de topo do blog A Nossa Opinião; MAI - Liberdade e Segurança; 'Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão'.(artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos). [ imagem produzida pelos Gráficos à Lapa para este blog do MAI, A Nossa Opinião ]](http://opiniao.mai-gov.info/wp-content/themes/mai-opiniao/img/topomaianossaopiniao.jpg)